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A mostrar mensagens de Dezembro, 2011

Lugares com falso nome de pessoa (II): Mariola, Marta e Martim

Continuando com o fio sobre lugares com falso nome de pessoa, no qual já foi tratado o caso de Suso e Susana, vejamos agora mais um exemplo com os nomes de Mariola, Marta e Martim. Mariola é, na Galiza, hipocorístico do nome bíblico Maria (hebreu Miriam). Marta é também nome bíblico, derivado do hebreu-aramaico מַרְתָּא, isto é "a Senhora"; sem dúvida é daí, através do culto cristão, que o nome se populariza, mas há quem sustenha que já tinha presença anteriormente, relacionado com o culto ao deus Marte, igual que Martinus. Martim existe, por sua vez, como a variante mais comum de Martinho, por influência do castelhano Martín. Mas são esses antropónimos os que subjazem sempre nas suas ocorrências toponímicas?

Toponímia celta (III): o tema ambas

Existe uma pequena controvérsia a respeito de se o tema *amba-, que na Galiza e no norte de Portugal tem uma certa presença, tem procedência céltica ou anterior, paleoeuropeia. Bascuas (2006), contudo, já notou a possibilidade de um tema paleoeuropeu sobreviver sem alteração a um superestrato celta. A tese de Bascuas é justamente esta: que ainda quando ambas provenha do paleoeuropeu com valor hidronímico, não há dúvida de que continua, por séculos, a servir como apelativo de "água", e não só (mais reduzidamente) de "rio".

Topónimos celtas (II): tema tegi-

Para os temas *tagi- e *tegi-, o professor Edelmiro Bascuas (2006: 62 ss.) tem oferecido o significado "lodeiro" baseado no PIE *ta- "derreter, apodrecer", que parece claro em hidrónimos como Tejo (<Tago). Porém, Miguel Costa (2010) oferece uma revisão na que, sem negar a possibilidade desse significado, traça uma alternativa de ascendência céltica onde *tegi- poderia relacionar-se com o éuscaro tegi, significando "alpendre".

Topónimos celtas (I): o tema cerv-

Há quem diga que em Cervo, no norte da Galiza, houve cervos (cervos suficientes como para gerar um zootopónimo, entenda-se), como também em Cerveira ou em Cervanha ou em Cervantes. Ora, os peritos apontam noutra direção, bem mais razoável, que se afasta claramente do zootopónimo.

Topónimos germânicos (IV): terminações em -ulfe, -ufe e -oufe


Continuamos com a toponímia germânica na Galiza. Como se viu até a altura, a maioria das ocorrências do fenómeno dão-se em como expressão de pertença ou propriedade. Isto é, que os topónimos são, na realidade, antropotopónimos e, portanto, procedem de antropónimos, neste caso germânicos - principalmente suevos - que chegam a nós através do seu genitivo latinizado. Viram-se os casos dos antropotopónimos com terminação em -rei, em -riz e em -mil, e agora é o momento de ver outro dos diversos casos genitivos vindos para a toponímia: a terminação -ulfe, que também tem ocorrência mediante a vogalização do -l- da tónica como -u-, dando -ou- (-oufe) ou -uu->-u- (-ufe).

Anseios de 1935 e de hoje: por uma revisão formal

Que a questão da deturpação toponímica não é apenas uma questão pós-fascista, no sentido de que a preocupação que arrasta não se deu apenas após a barbárie linguística de mais de 40 anos do fascismo espanhol, é um facto que demonstram as palavras que já em 1935, escrevia em A Nossa Terra (nº372, 29.6.1935) quem foi o pai do reintegracionismo galego: Ricardo Carvalho Calero. Interessa, por isso, reproduzi-las, mesmo na sua forma originária, que não deverá estranhar a nenhum leitor de português:

Topónimos germânicos (III): terminações em -mil

Continuando com a linha de notas sobre toponímia germânica originária da época do Reino Suevo da Galiza e da ocupação hispano-visigótica posterior e até o s. VIII, é ocasião de falar daquela toponímia com terminação em -mil. Estamos, do mesmo modo que as terminações já comentadas em -rei e em -riz, perante toponímia que responde aos antropónimos dos proprietários rurais da Idade Média e que, justamente por isso, deriva para o galego-português através do genitivo latino vulgar.

Lugares com falso nome de pessoa (I): Suso e Susana

Como nesta época estamos a falar da relação entre antroponímia e toponímia, nomeadamente a respeito dos antropotopónimos germânicos na Gallaecia, a nota de hoje vai sobre um tema similar, adjacente quase. Certamente, todas e todos teremos visto nomes de pessoa nos topónimos: não estou a falar em hagionímicos nem apenas no facto de haverem antropónimos camuflados na origem de alguns nomes de lugar, como no caso comentado de antroponímia germânica com terminação em -rei, em -riz, em -mil ou em -ulfe, que também já se viram aqui. Estou a falar de nomes de pessoa clarinhos, visíveis, evidentes. Mas, é tanto assim? É, mesmo?

Topónimos germânicos (II): terminações em -riz

Continuamos agora com a toponímia galego-portuguesa de raiz germânica, centrando-nos nos numerosíssimos topónimos com terminação -riz. Antes de mais, porém, será necessário notar que, na Galiza, polo habitualmente alegado impasse linguístico, as formas em -riz convivem, no nomenclador oficial, com terminações em -ris oxítona (vg. Sabaris, Esparis, Guldris, etc.) que, em qualquer caso, deveriam sempre escrever-se -riz (Sabariz, Espariz, Guldriz, etc.) se quisermos manter uma mínima fidelidade etimológica.

Viana do Castelo: água ou caminho?

Continuando com o bloco de cidades da Portugaliza, nesta ocasião vamos centrar-nos em Viana do Castelo, cuja etimologia oferece certa controvérsia. Vianas, mesmo que nesta ocasião se fale especialmente de Viana do Castelo (antiga Viana da Foz do Lima), há várias: além da referida, em Portugal está também Viana do Alentejo (antiga Viana a par de Alvito), e na Galiza ficam Viana da Grade e S. Pedro de Viana e Sta. Cruz de Viana (as três no conc. Chantada) e Viana do Bolo, e há também um Vião (graf. isol. Vián) e um Ouvianha. E não só: o topónimo repete-se noutras áreas da península ibérica e mesmo de Europa, como se verá.

Um compêndio de antropónimos germânicos

Nomes do País acaba de fazer público sob licença aberta um compêndio dos principais prototemas e deuterotemas dos antropónimos germânicos que têm ocorrência na documentação medieval galega e portuguesa. Tomando como referências os estudos de Sachs (1932), Piël (1933-40) e Köbler (2007), o objetivo é colaborar na investigação da antropotoponímia sueva e visigoda que ainda pervive na Galiza e em Portugal, nomeadamente na sua metade norte. Para aceder, apenas veja esta ligação.

Topónimos germânicos (I): terminações em -rei.

Continuando com o antecipado na nota anterior sobre Guimarães e Guimarei, agora vamos abundar no processo antropónimo > topónimo, centrando a vista nos antropónimos germânicos cuja terminação -rei estava já em Guimarei e que dá lugar, através de outros antropónimos, a uma série bastante abundante na toponomástica galega e, sem dúvida, especialmente no que diz a respeito da antropotoponímia.

Guimarães: Portugal nasceu na herdade de um crunhês

Quem vier atrazido polo título desta nota deve saber que uma afirmação assim responde apenas a uma questão puramente literária. Portugal não nasceu na Crunha. Mas na história de Guimarães e, sobretudo, no seu nome, transparece a história do reino da Galiza e das suas casas nobres, entre elas a de Vímara Peres, num de cujos prédios teve origem a cidade que hoje se reclama como berço da nação portuguesa.

Vigo: a cidade que se chama aldeia

Como parece que, sem tê-lo pretendido, se tem estabelecido uma série de grandes cidades galego-portuguesas (Compostela, A Crunha, Lisboa), tratemos nesta ocasião Vigo, a cidade mais importante da Galiza por número de habitantes e por potência económica. Então, o que significa Vigo?

Do modo como o porto d'Oção terminou sendo o porto em que zoava muito o vento

Vão já várias notas a falar sobre a deturpação da toponímia galega às mãos dos recentralizadores castelhanos de diversas épocas, mas o tema não se esgota, não. É quase infinito, tanto como incontornável. Um dos exemplos que mais chama a atenção é o do Porto d'Oção, castelhanizado como Puerto del Son, parelho à toponímia oficial galega como Porto do Son. Como?

Das igrejas e da geo-referencialidade

Diz José da Cunha que, "nos primeiros séculos da cristianização peninsular, a presença de uma igreja era uma marca de tal modo importante e rara no espaço geográfico, histórico e cultural que merecia diferenciá-lo toponimicamente". A ciência toponímica explica que esse é, precisamente, um dos condicionantes sine quae non para o estabelecimento de um topónimo. Mas, em qualquer caso, mesmo sendo efetivamente certo o que Cunha indica, parece que a relevância que justifica salientar a igreja em forma de topónimo não se deveu produzir apenas nos primeiros séculos da cristianização. Vejamos.

Lisboa foi um porto feliz?

Noutra parte deste caderno já se falou do modo como a etimologia, ciência que nasceu ao abeiro do romanticismo, se coligou amiúde com o nacionalismo e o chauvinismo para produzir as mais imaginativas soluções. Na Galiza, por exemplo, a Crunha estava fundada por Hércules, segundo asseguraram alguns, referindo-se ao faro que na atualidade se denomina Torre de Hércules, precisamente. Ponte Vedra, por sua vez, era fundada por Teucro, e assim por diante. A ideia dessas fundações heróicas pode entender-se na Galiza como uma vontade, talvez, de superar a minorização que os poderes centralistas fizeram sempre, desde o processo de Doma e Castração. Talvez. Disso saberão falar os antropólogos. Mas, mesmo que esses condicionantes operem aí, a referida tendência não se dá apenas na Galiza.

O neno ou as águias

Vai outra de toponímia deturpada. Quem leia saberá desculpar, por dous motivos: porque a toponímia deturpada se presta às maiores burrices no seu estudo etimológico; e porque a toponímia deturpada é, simples e tristemente, maioritária. O caso de hoje constitui, ademais, uma das mais flagrantes barbaridades daquele processo de desnaturalização linguística que continua, mas que teve a sua época de glória há já uns anos. Refiro-me a Ninho d'Águia, que alguém traduziu, pola brava, como "Niño de la Guía" (Criança ou Neno do Guia), apoiando-se em sei lá que cousas da Virgem Maria.