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Mensagens

O reino da Galiza no Teatro do Mundo de W. J. Blaeu.

Em 1650, Willem Janszoon Blaeu publicou em Amesterdão o conhecido como Le theatre du monde ou Nouuel atlas, um compéndio cartográfico que, além de mapas, incluía também uma série de textos descritivos (geográfica e historicamente) de cada um dos territórios tratados.

A continuação, reproduzo o texto relativo à Galiza, traduzido (penso que pola primeira vez na nossa língua) e na sua versão original em francês, assim como umas considerações finais, por força brevíssimas:


Tradução A Galiza toma o seu nome dos povos Calaicos. Este reino limita pola banda setentrional com o Oceano, ao seu sul está Portugal, separado dela polo rio Douro; ao levante, limita com Astúrias e Leão. Décimo Júnio Bruto, cónsul romano, após ter vencido os povos daquele país no ano 617 após a fundação de Roma, recebeu o sobrenome de Galaico. Mas é certo que os galaicos, ou, mais bem, os galegos, se estenderam por um largo espaço e ocuparam uma grande porção de terra, visto que Paulo Orósio diz que a Numância, que h…
Mensagens recentes

Bois na toponímia: falsos zootopónimos?

As homofonias criam, amiúde, topónimos que, desde determinado ponto de vista, podem resultar intrigantes. Já falamos do caso de Cervo, Cervantes ou Cerveira, e do modo como parecem zootopónimos vindos do cervus latino, sendo que provêm, mais provavelmente, da raíz PIE *ker-, com valor também oronímico. E ainda não é um caso muito extravagante, porque cervos / zebros houve na Galiza e em Portugal, ainda quando parece difícil que possam dar para estabelecer um topónimo. Para isso parece que seja necessário um bocado mais.
Outro caso de confusão com zootopónimos é o de boi-, que, desse ponto de vista, estabeleceria toponímia certamente abstrusa como Boimorto, Boi de Canto ou Boiamonte, que por pressão dessa explicação espúria, há quem escreva Boi-a-Monte (como se fosse cabra).
Com boi- há Boiaca, Boial, Boialvo, Boiám, Boico, Boicornelho, Boi de Canto, Boi de Gures, Boidobra, Boimorto, Boi Pequeno, Boiro (com reticências), Boisaca, Boivão, Boi Vivo e Boizám. Aliás, há vários Boi compo…

Toponímia maior da comarca dos Ancares

Os Ancares, a serra que hoje faz de limite oriental à Comunidade Autónoma Galega, mas que geograficamente oferece um contínuo com a comarca irredenta do Bérzio, é também o nome que recebe a comarca histórica e administrativa conformada polos atuais concelhos de Bezerreã, as Nogais, Baralha, Cervantes, Návia de Suarna e Pedrafita do Zebreiro, em território administrativo galego, mais o concelho de Candim, em território administrativo leonês. Atravessada por vários afluentes do rio Návia, limita a norte com a comarca da Fonsagrada, a oeste com a comarca de Sárria, a sul com a Terra de Quiroga e a leste com o Bérzio.


O topónimo Ancares O topónimo Ancares, na sua extensão mais reduzida, corresponde a um vale onde hoje se situa o concelho de Candim (graf. esp. Candín). Em 1787, o Censo de Floridablanca já recolhe uma jurisdição de Ancares, integrada por oito povos: Candim, Pereda, Sorbeira, Vilasumil, Sortes, Espinhareda de Ancares, Lumeiras e Vilarbom, com os seus topónimos convenienteme…

Toponímia maior da comarca da Arnóia

A comarca da Arnóia — oficialmente, comarca de Alhariz-Maceda — inclui os concelhos de Alhariz, Banhos de Molgas, Maceda, Paderne de Alhariz, Junqueira de Ambia e Junqueira de Espadanedo. A comarca linda a leste com a terra de Ourense, ao oeste com a terra de Caldelas, a sul com a Límia e a sueste com a terra de Celanova;e possui dous pontos de referência importantes: o monte Penamá (927m) e o rio Arnóia, que a atravessa de leste a oeste.
Alhariz Alhariz é, sem dúvida, o centro urbano mais importante da comarca e, como corónimo, possui uma extensão no vizinho Paderne, que é de Alhariz, o que aponta para a sua importância referencial. Etimologicamente é bem fácil deduzir uma procedência de Aliarici, como genitivo de Aliaricus, cujo segundo elemento -rik- (*rīkjaz 'forte, nobre') leva imediatamente para a antroponímia germânica de que já falamos aqui. Há documentado, com efeito, Aliarico, que é caso pouco frequente, porém, válido. De maneira que a uila Aliarici será a vila de A…

Apontamentos sobre o conceito de território na Gallaecia: dos celtas aos suevos

Os territórios políticos da antiguidade sobreviveram em muitos casos, tanto na sua concepção geográfica ou espacial, quanto no que diz a respeito do seu nome. Hoje, é possível rastejar corónimos celtas nos nomes das nossas comarcas e, nomeadamente, das demarcações geográficas da hierarquia católica. A divisão geográfica é interessante por si própria, como parte da história do país, mas também o é para a toponímia e, sobretudo, para o caso concreto dos corónimos. O que vem a continuação é apenas uma série de apontamentos sobre a organização territorial na Gallaecia desde a época pré-romana, mas com referências na documentação romana, até ao século VI e a ré-organização sueva. São apenas apontamentos introdutórios, e portanto não deve procurar-se neles qualquer exaustividade.



1. LIMITES Como para todo território, interessa considerar quais são os limites, isto é, até onde é que um território existe —e se nomeia de determinada maneira— e também o modo como, em geral, os territórios são …

Mondonhedo, o topónimo que viajou

Não há muitos casos como o de Mondonhedo, a sétima cruz do escudo da Galiza, a sétima das suas sés episcopais e a sétima das suas sete províncias históricas até 1833. A topónimo Mondonhedo tem dado bastante literatura, alguma significativamente errada.


De Mindonieto para o Vale do Bria Em primeiro lugar convém notar que o atual Mondonhedo não se corresponde com o lugar que hoje ocupa a sé episcopal e a cabeceira do concelho do mesmo nome. Ao contrário, corresponde-se com o lugar conhecido como S. Martinho de Mondonhedo, hoje paróquia no concelho de Foz e na época medieval, desde o s. V, habitado por uma nutrida presença de imigrantes bretões que estabeleceram lá a única diócese étnica da Galiza, recolhida como tal no conhecido parochiale suevorum. Daí foi trasladada no século XII 18 quilómetros por ordem da rainha dona Urraca à localização atual, que recebeu o seu nome em substituição do topónimo anterior, documentado como Vila Maior de Vallibria, isto é, Vila Maior do Vale do Bria. 

Congostras

Congosta ou congostra, como variante galega, é um dos nomes empregues para denominar uma rua estreita e longa, um caminho estreito entre paredes ou cómaros: uma corga. Procede aí do latim coangusta, isto é, do prefixo cum mais o particípio angusta 'estreita', dando como resultado um apelativo que se manteve operativo até a atualidade, nomeadamente em áreas rurais.

A palavra angusta pervive nalgumas línguas romances, como no próprio galego-português angusto 'estreito', no espanhol angostar 'fazer estreito' ou no romeno îngusta, com o mesmo significado de estreiteza. E, como forma culta, também em angústia, que não é mais do que, literariamente, uma sorte de estreiteza sentida no ânimo, mas que pode ter aplicações na toponímia que vaiam além da evidência hagionímica da virgem das Angústias. Não deverá estranhar, pois, se, na realidade, as Angústias atuais forem, nalguns casos, puras ré-elaborações a cargo de bispados e outras hierarquias com capacidade para nomea…