O reino da Galiza no Teatro do Mundo de W. J. Blaeu.

Em 1650, Willem Janszoon Blaeu publicou em Amesterdão o conhecido como Le theatre du monde ou Nouuel atlas, um compéndio cartográfico que, além de mapas, incluía também uma série de textos descritivos (geográfica e historicamente) de cada um dos territórios tratados.

A continuação, reproduzo o texto relativo à Galiza, traduzido (penso que pola primeira vez na nossa língua) e na sua versão original em francês, assim como umas considerações finais, por força brevíssimas:


Tradução

A Galiza toma o seu nome dos povos Calaicos. Este reino limita pola banda setentrional com o Oceano, ao seu sul está Portugal, separado dela polo rio Douro; ao levante, limita com Astúrias e Leão. Décimo Júnio Bruto, cónsul romano, após ter vencido os povos daquele país no ano 617 após a fundação de Roma, recebeu o sobrenome de Galaico. Mas é certo que os galaicos, ou, mais bem, os galegos, se estenderam por um largo espaço e ocuparam uma grande porção de terra, visto que Paulo Orósio diz que a Numância, que hoje reputadamente faz parte da antiga Castela, estava nos confins da Galiza, e ainda mais, que face ao oriente, chegava até aos Pirinéus. Hoje, porém, está limitada polo mar e rio Anha e polos reinos de Leão e Portugal. Esta área tem sido ocupada por outras nações diferentes dos galaicos ao longo do tempo, como os anfiloquianos, os cilenos, os célticos, os tamaricos na zona do rio Tamarim, os ceporos, os lucianos e os ceclianos. 

O principal e quase único rio é o Minho, que se forma nos lugares mais afastados da Galiza e a atravessa por meio, de norte a sul, visitando Ourense e muitos outros lugares, e descarrega no mar Ocidental. A costa está entrecortada por numerosos golfos, nos quais se encontram mais de quarenta portos ou peirãos, os maiores e mais famosos dos quais são a Corunha e Ferrol. 

Esta província contém nos seus limites cinco cidades episcopais, e outras cinquenta e sete amuralhadas. Na atualidade, a sua cidade capital é Compostela, não enobrecida por qualquer valor de antiguidade ou de acontecimentos heróicos, mas polas relíquias de S. Tiago, que é o patrão de toda a Espanha. É por isso que os espanhóis chamam a vila de Sant Iago. Antigamente, foi denominada Brigantium, mas hoje tem sido substituída por este arcebispado. Lugo mostra claramente, polo circuíto das suas muralhas, ter sido uma grande cidade: tem também fontes de água quente, até mesmo fervente. A cidade de Ourense está situada mesmo à beira do rio Minho, num terreno não somente prazeroso e recriativo, mas também muito fértil, adubado por toda a parte com excelentes árvores de fruta e grande número de vinhas que produzem um vinho bem bom e generoso. Mas o mais famoso são as suas fontes de águas quentes, capazes de curar todas as enfermidades, algumas das quais jorram água temperada que não dana os corpos de quem se lava com elas, mas outras tão quentes e ferventes que não poderíamos suportar o seu calor e que os ovos se cozinham nelas facilmente. Nesta cidade há uma igreja catedral, cujo bispado tem três mil ducados de renda. As outras cidades menores são Tui e Mondonhedo, que gozam de um ar são e temperado, e de um terreno grandemente fértil.  

O resto das vilas estão situadas quer sobre a beira do mar, como Baiona, frente à qual se podem ver as ilhas de Baiona, antigamente ditas ilhas de Deuses, ou como Vigo, Ponte Vedra, que têm dez milhas entre elas, Padrão, Noia, Muros, Cee, Fisterre, Mogia, Corunha, Ponte d'Eume, o jardim da Galiza, Ferrol, Santa Maria, Viveiro ou Ribadeu; quer sobre as margens dos rios, como Sárria, Betanços, Riba d'Ávia, Viana, etc. 

A Corunha está dividida em duas vilas, a saber, uma superior e outra inferior. A superior está situada na descida de um monte, equipada com fortificações e com um castelo; a inferior, conhecida vulgarmente como Pescaria, situa-se na costa, em baixo, e todos os seus lados estão batidos polo mar, a modo de uma península. Esta cidade tem um peirão capaz de acolher uma grande flota de barcos, e não longe de aqui há mui excelentes minas de jaspe. Marinée conta que a vila de Taure, nas margens do rio Douro, lugar esgrévio, tem abundância de vinho claro, grão e diversos tipos de frutas. 

As vilas marinheiras da Galiza situam-se na ordem seguinte: Avilés, de onde se contam seis léguas marinhas até Luarca, de Luarca a Riba d'Eu, dez; de Riba d'Eu a Viveiro, dez; de Viveiro a S. Marcos, uma; de S. Marcos até ao cabo Ortegal, seis; detrás do cabo Ortegal vemos um castelo, e depois há quatro léguas até a Cedeira; de Cedeira a Ferrol, seis; de Ferrol à Corunha, três; de Corunha às Sisargas, seis; das Sisargas a Queres, duas; e também de Sisargas ao Cabo Belém , nove ou dez; deste cabo até ao de Coriane, duas; entre estes dous cabos há um golfo a cuja direita está a vila de Mogia; finalmente, depois do Cabo de Coriane até ao de Fisterra, duas, et daí a Sechen, ou ainda a Corconie, uma; depois do mesmo cabo até Ponte Vedra, sete: esta cidade, afastada do mar, está situada numa das partes mais interiores do golfo, na embocadura da qual há uma ilha oposta, desde a qual há, até as de Baiona, quatro léguas; e aproximadamente a meio caminho entre estes dous lugares encontram-se Cangas e Vigo; de Baiona a Caminha há tres léguas, e depois de Caminha até Viana, cinco; onde se encontram os limites da Galiza.

O ar da Galiza é temperado contra a ribeira do mar, mas dentro do país é mais frio; o terreno é desigual e por toda a parte montanhoso. Entre as cidades de Ourense e Monterrei, há uma chaira muito prazerosa; o resto do país é ocupado por montanhas e vales muito estreitos, de onde surgem grande número de mananciais que dão lugar a um número infinito de pequenos regatos e por volta de setenta rios, entre os quais os principais são o Sil, o Minho, o Ulha e o Tambre. Esta província produz em cada época todas as cousas necessárias para a vida humana, e grande abundância de peixe fresco que, salgado e bem acomodado em toneis para se conservar, é exportado. Os galegos, por causa da grande humidade do ar (pois em Compostela chove por volta de nove meses ao ano) ou por causa de terem abundância de todas as cousas necessárias, ou por se contentarem com pouco, não exercem apenas o tráfico nem as artes mecânicas.

A Galiza recebeu o título de reino por volta do ano de graça de 1060. Pois naquele tempo Fernando, rei de Castela, filho de Sancho o Maior, rei de Navarra, após casar com a filha de Afonso V, irmã e única herdeira de Veremundo III, rei de Leão, após ter unificado os dous reinos, tendo três filhos, dividiu o seu domínio por testamento, a saber: a Sancho, a Castela; a Afonso Leão e Astúrias, e finalmente a Garcia a Galiza e Portugal. Ora Sancho, não contente com a divisão do testamento de seu pai, expulsou seu irmão Afonso do seu reino, e matou seu irmão Garcia. Após reinar arredor de seis anos, foi morto  e Afonso, que se tinha refugiado em Toledo junto com o rei dos mouros, recuperou não somente o seu reino de Leão, que tinha conseguido por testamento de seu pai, como também os de Castela, Galiza e Portugal. O referido Afonso teve três filhos legítimos de três mulheres, a saber, uma filha denominada Sancha, e dous filhos, Sancho e Afonso, que será o seu herdeiro de todos os reinos de seu pai e, pola grandeza do seu império, irá merecer o nome de Imperador das Espanhas, depois do qual a Galiza teve sempre o mesmo rei e senhor que Leão e a Castela.

Entre todos os templos do reino, o mais famoso é o de Compostela. Afonso o Casto fundou-o e dedicou-o à honra do apóstolo S. Tiago no mesmo lugar em que as relíquias deste santo apóstolo foram encontradas pelo bispo Teodomiro. Lá chegou por volta do ano 835, nos tempos do reino de Rodríguez. Após ter sido edificado, tiveram lugar grande número de milagres e o nome de S. Tiago tornou-se muito famoso como aquele que apareceu muitas vezes em combates com os mouros, ajudando os cristãos e singularmente o rei Ramiro. Daí vem que os espanhóis tenham por costume chamar durante o combate por S. Tiago, gritando o seu nome em voz alta: Sant Iago. Assim, sob o título desse nome, os espanhóis têm uma ordem de cavalaria, onde não se é recebido se não se tiverem pais nobres e ilustres. O rei Afonso III fez revestir este templo muito mais magnífico do que antes, e todos os sucessores o adornaram com grandes doações e ricas ofrendas; e os Papas de Roma deram-lhe grandes prerrogativas, como Urbano II, que transportou o Evangelho de Íria Flávia para este igreja; exemplo do poder do arcebispo de Braga, o Papa Pascal confirmou e deu à igreja de Compostela o privilégio de poder fazer e criar doze cardenais, que seriam eleitos entre os cónegos da mesma igreja. Finalmente, o Papa Calixto elevou esta igreja a arcebispado de Mérida. Há o costume de visitar esta igreja desde todos os lugares da cristiandade, e concorrem um número infinito de pessoas. Silio Itálico fala assim da Galiza e dos galegos no livro 3:

Fibrarum et penna, divinarumque sagacem
flammarum, misit dives Gallaecia pubem:
Barbara nunc patriis ululantem carmina linguis, 
nunc pedis alterno percussa verbere terra
ad numerum resonas gaudentem plaudere Cetras: 
haec requies ludusque viris, ea sacra voluptas, 
caeterea faemineus peragit labor, addere sulco
semina, et impresso tellurem vertere aratro, 
segne viris, quicquid duro sine Marte gerendum est, 
Callaici Conjux obit irrequieta marisi. 

Versão em francês

Gallice a pris son nom des peuples Callaices. Ce Royaume est ferré du costé Septentrional par l'Ocean : à son Midy il a la Portugalle , de laquelle il est separé par le fleuve Durie : au Levant l'Asturie & Léon. D. Iunius Brutus Consul Romain , ayant vaincu les peuples de ce pays , l'an depuis la fondation de Rome 617 , mérita d'estre surnommé Callaice. Mais il est certain que les Callaices, ou bien Galliciens, s'estendoient bien plus au large, & occupoient plus grand pays , veuque Paul Orosè dit, que Numance, qui est à present réputée de l'ancienne Castille , a esté sur les confins & commencement de la Gallice ; & qui plus est, ce pays s'estendoit vers l'Orient , jufques aux monts Pyrénées : & maintenant il est limité par la mer & le fleuve Anie , & par les Royaumes de Léon & Portugal. Cette contrée a du temps passé esté occupée par diversès nations outre les Callaices , comme par les Amphilochiens , Ciliens, Celtiques, Tamariques sur le fleuve Tamarin, Cepores, Luciens & Zecliens. Le principal & presque l'unique fleuve est le Mino , lequel renant sa source des plus esloignées parties de la Gallice , la traverse quasi toute par le milieu, tirant du Septentrion contre le Midy , & visitant Orense , & plusieurs autres places , sè descharge dans la mer Occidentale. Le rivage de la mer est entrecoupée de plusieurs Goulfes , dans lesquels le trouvent plus de quarante ports ou havres , les plus grands desquels, & les plus renommez, sont Corunne & Ferrol.

Cette Province contient dans lès limites cinq villes Episcopales , & cinquante sèpt autres ceintes de murailles : pour le jourd'huy sa ville capitale est Compostelle, non annoblie d'un tas d'antiquitez & de faits héroïques , mais des reliques de S.Iacques , qui est le patron de toute l'Espagne; ce pourquoy les Espagnols appellent cette ville Sant Iago : Anciennement elle fut dite Brigantium , & pour le present elle est rédigée en Archevesché. Lugo monstre suffisàmment par le circuit de ses murailles qu'elle a esté autresfois une grande ville : elle a des fontaines d'eau chaude, voire mesme bouillantes. La ville d'Orensè est située sor le bord du fleuve Mino , non seulement en un terroir fort plaisant & recreatif , mais aussi tres-fertil , orné de tous costez d'excellens arbres fruiétiers , outre un grand nombre de vignobles , qui produisént du vin tres-bon & généreux : mais ce qui rend cette ville plus renommée, sont ses fontaines d'eau chaude , & propre à guarir toutes fortes de maladies , aucunes d'icelles estans si tiedes & tempérées qu'elles ne nuisent aucunement aux corps de ceux qui s'y lavent : mais les autres sont tellement chaudes & bouillantes que l'on ne pourroit sùpporter leur chaleur , & les œufs s'y cuissent facilement. En cette ville il y a Une Eglife Cathédrale, l'Evesque de laquelle a trois mille ducats de revenu. Les deux autres moindres villes sont Tui & Mondogneto , lesquelles jouyssent d'un air sain & tempéré, & ont un terroir grandement fertil.

Les autres villes sont fituées , ou sor le rivage de la mer , comme Bayonne , a l'opposite de laquelle se voyent les Isles de Bayonne , anciennement dites Isles des Dieux: Vigo, Pontevedra, qui a dix mille cinq cent feux : Padro , Noya, Muros , Cea , Finis terra; , Mongia , Corunne, Pontedeaume, le Iardin de Gallice, Ferrol ,S.Marie, Bivero , Ribadeo ; ou bien for les bords des fleuves , comme Sarrie , Betancos , Rivadavie, Viane, &c.

Corunne est divisée en deux villes , à sçavoir en la Supérieure & l'Inférieure. La Supérieure est située sor la deseente d'une montagne , munie de rempars & d'un chafteau , à laquelle l'Inférieure, vulgairement dite Pescarie,eft conjointe du costé d'en bas, & tous ses autres flancs sont battus des flots de la mer à la façon d'une peninsule. Cette ville a un havre capable pour loger une grande flotte de vaisseaux ; & non loing d'icelle il y a de très-excellentes mines de Iaspe. Marinée raconte que la ville de Taure estoit aflîse sur le bord du fleuve Durie, en un lieu razé, & eslevé , laquelle estoit fort abondante en vin clairet, grains & diversès sortes de fruits.

Les villes maritimes de Gallice sont situées en l'ordre fuivant ; Avila, de laquelle ville l'on compte six lieues jusques à Luarce ; de Luarce jusques à Ribadeo dix; de Ribadeo jusques à Vivero dix : de Vivero à la ville de S. Marc une : de S. Marc jusqu'au Cap Ortegal six : derrière ce Cap d'Ortegal on void un chasteau : depuis ce Cap jusques à Sedeire quatre : de Sedeire jusques a Ferrol six : de Ferrol jusques à Corunne trois : de Corunne jusques à rifle de Cysarge six: de Cysarge jusques à Queres deux: & aussi de Cyfarge jusques au Cap de Bellem , neuf ou dix: de ce Cap jusques à celuy de Coriane deux : entre ces deux Caps est un Goulfe , sor la gauche duquel est située la ville Mongie; finalement, depuis le Cap de Coriane jusques à celuy de Finisterre deux : & de là jusques à Sechen , ou bien Corconie , une : & auffi depuis le mesme Cap jusques à Pontevedra, sept ; cette ville estant plus esloignée de la mer, est située dans la partie plus intérieure du Goulfe, à l'emboucheure duquel est une Isle opposée , de lequelle , jusques à Bayonne il y a quatre lieues , & environ à mi chemin entre ces deux places se rencontrent Cannes & Vigo , de Bayonne jusques à Camine trois lieues : & enfin depuis Camine jufques à Viane , cinq; là où aboutissent les confins de Gallice.

L'air de Gallice eft tempéré vers le rivage de la mer: mais dedans le pays il eft froidelet; le terroir est inégal , & pour la pluspart montagneux. Entre les villes d'Orense & de Montere, il y a une plaine fort plaisante : le reste du pays est occupé par des montagnes & vallées fort estroites , où sourdent grand nombre de fontaines , & descoulent un nombre infiny de petits ruisseaux , & environ septante petites rivieres entre lesquelles les principales sont le Sil , Migno , Vile & Tambre. Cette Province produit à soison toutes choses necessaires à la vie humaine , & grande abondance de poissons frais, lesquels estans salez & bien accommodez dans des tonneaux pour se consèrver , sont transportez ailleurs. Les Galliciens , ou à raison de la grande humidité de l'air (car vers Compostelle il pleut environ neuf mois l'année ) ou à causè qu'ils ont en abondance toutes choses necessaires , ou bien d'autant qu'ils sont contents de peu, n'exercent gueres le trafic, ny quelques arts mechaniques.

Gallice a receu le tiltre de Royaume environ l'an de grâce 1060. Car en ce temps Ferdinand Roy de Castille , fils de Sanctie le Majeur Roy de Navarre , après qu'il eut esppusé Sanctie fille d'Alphonsè V,sœur & unique héritière de Veremond III Roy de Léon , & qu'il eut ainsi conjoint les deux Royaumes , ayant trois fils , divisa par testament son domaine , à sçavoir , à Sanctie la Castille; à Alphonsè le Leon & l'Asturie; & finalement à Garcie la Gallice & Portugal. Or Sanctie, non content de la division testamentaire de son père , chassa son frère Alphonse de son Royaume , & tua son frère Garcie. Apres qu'il eut régné environ six ans , & qu'il fut tué par finesse de Vellede, Alphonse qui s'estoit réfugié à Tolède auprès du Roy des Mores , recouvra non seulement son Royaume de Léon qu'il avoit auparavant par testament de son père , mais aussi ceux de Castille , Gallice & Portugal. Ledit Alphonse eut trois enfans légitimes de trois femmes, à sçavoir une fille nommée Sanctie, & deux fils , Sanctie & Alphonse , lequel demeura seul héritier de tous les Royaumes de son pere, & par la grandeur de son Empire mérita le nom d'Empereur des Espagnes , depuis lors la Gallice a eu toujours un mesme Roy & Seigneur avec le Léon & la Castille.

Entre tous les temples du Royaume le plus fameux est celuy de Compostelle. Alphonse le Chaste le fonda , & le dédia à l'honneur de l'Apostre S.Iacques , au mesme lieu où les Reliques de ce sainct Apostre furent trouvées par l'Evesque Theodimire. Cela arriva environ l'an 83 y, au temps du règne de Roderiguez. Apres qu'il fut édifié , il s'y faisoit grand nombre de miracles , & le nom de S. Iacques fut fort fameux, comme celuy qui est apparu plusieurs fois combattant contre les Mores, & secourant les Chreftiens, & singulierement le Roy Raymere. D'où est venu que les Espagnols ont de coustume d'appeller en combattant le nom de S. Iacques crians à haute voix , Sant Iago. Aussi souz le tiltre de ce nom , les Espagnols ont un ordre de Chevallerie , dans lequel personne n'est receu s'il n'est procréé de parens nobles & illustres . Le Roy Alphonse III fit rebastir ce temple beaucoup plus magnifique qu'auparavant , & tous ses successeurs l'ont orné de grands dons & de riches offrandes : & les Papes de Rome l'ont doué de grandes prérogatives , comme Vrbain 1 1 transporta l'Evesche d'Iris-Flavie en cette Eglifê, l'exemptant de la puissance de l'Archevesque de Bracare: ce que le Pape Paschal confirma, & par dessus donna à cette Eglise de Compostelle ce privilège de pouvoir faire & créer douze Cardinaux , lesquels sont esleus d'entre les Chanoines de la mefme Eglise. Finalement le Pape Calixte esleva cette Eglise en Archevesché , luy attribuant l'Archevesché d'Emerite. On a de coustume de visiter cette Eglise de tous les quartiers de la Chrestienté , y concourant journellement un nombre infiny de perfonnes. Silius Italicus parle ainsi de la Gallice & des Galliciens au livre 3:

Fibrarum et penna, divinarumque sagacem
flammarum, misit dives Gallaecia pubem:
Barbara nunc patriis ululantem carmina linguis, 
nunc pedis alterno percussa verbere terra
ad numerum resonas gaudentem plaudere Cetras: 
haec requies ludusque viris, ea sacra voluptas, 
caeterea faemineus peragit labor, addere sulco
semina, et impresso tellurem vertere aratro, 
segne viris, quicquid duro sine Marte gerendum est, 
Callaici Conjux obit irrequieta marisi. 

Considerações finais

A respeito do texto em si, alguns topónimos aparecem com formas relativamente estranhas; outros são difíceis de identificar —quando menos, para mim— e deles só posso oferecer conjecturas. Entre os primeiros, o rio Tamarim é, evidentemente, o rio Tambre, as ilhas Cysarge são as Sisargas (< lat. Caesaricas), e Sedeire é Cedeira.

Sobre os outros topónimos, os que apenas posso conjeturar: o rio Ania pode ser referência do rio Lima, que desemboca em Viana do Castelo, a sul do qual está a atual Anha. Os cabos de Coriane e Belém penso que sejam os cabos Tourinhão e Vilão. No caso do segundo, penso que possa haver uma simples confusão fonética beˈlɛŋ / biˈlaŋ, pois é assim que se pronuncia nessa zona da Galiza o nome do cabo. Corconie, que também aparece citada na descrição da Costa da Morte (que não aparece com este nome), penso que seja Corcubião, pola descrição da distância, o que dá para identificar Sechen com Cee —ainda quando, anteriormente, Cee apareça sob a forma Cea. A respeito desta dualidade, também é certo que Viveiro aparece como Vivero e como Bivero, sem muito reparo, o que me induz a pensar que estejamos perante um caso similar de confusão fonética e de transcrição, pois, errada. A referência a Queres resulta-me indecifrável: pola distância conjeturo que se deve encontrar algures na ria de Corme e Lage, mas não encontro toponímia atual que o confirme.

Mais dous apontamentos toponímicos: o primeiro é para a confusão Brigantium / Compostela, evidentemente errada: na controvérsia sobre a localização da antiga Brigantium esta é, que eu conheça, a única identificação que se tem feito com Compostela. O segundo é para a referência à vila de Taure nas margens do Douro, imediatamente após o parágrafo sobre a Crunha, e que não sou quem de explicar.

A respeito dos limites, Blaeu distingue perfeitamente a diferença entre a extensão da província romana (ainda quando cite Orósio, amplamente discutido hoje) e a extensão do Reino da Galiza na época em que é redigido o texto. Por sinal, corresponderia com os limites atuais, ainda um bocado alargados a norte, até Lluarca e Avilés; e a sul, até ao rio Lima, segundo identifico. É claro que a descrição se limita aos territórios costeiros, com a excepção de Lugo e Ourense e a citação de Monterrei. Daí que não seja possível tirar uma conclusão a respeito dos limites orientais da Galiza.  Em qualquer caso, o mapa que acompanha o texto dá outros limites: polo Cantábrico, o limite claro fica na ria do Eu; e polo Atlântico, polo rio Minho. O mapa, porém, não foi desenhado por Blaeu, mas por frei Hernando Ojea, vários anos antes, o que explicaria as diferenças entre a descrição e a cartografia.

Por último, as referências históricas mereceriam provavelmente alguma anotação. Porém, talvez não seja lugar aqui para o tratar com a suficiente extensão. Fique assim, por enquanto, como um texto geográfico, sem outra dimensão que a descritiva. Essa é a missão do Teatro do Mundo, e esse é o seu interesse.

5 comentários:

  1. É possível Queres corresponder aos múltiplos topônimos Cores (Rio de Cores por exemplo) em Ponte-Cesso?

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. E isso poderia vir a estar relacionado co cabo Coriane? Nessa hipótese caberia vincular Taure con Taurinian, embora isso não explicase a referência ao Douro.

      Eliminar
    2. Carlos, bem-vindo.

      Muito interessante o que dizes dos topónimos Cores, que eu não conhecia. Assim, com ajuda, dá gosto! Outro tema é o de Coriane relacionado com Cores. Mesmo que etimologicamente possa ser —e eu não tenho dúvida de que pode ser, pondo ambos em relação, ao mesmo tempo, com a raíz oronímica *kor-, sobre a que já falamos neste caderno—, estou bastante certo da identificação do cabo Coriane com o Tourinhão. Outra cousa é, evidentemente, que esse cabo pode ter tido outro nome no passado. É um tema que desconheço e que cabe investigar mais. Polo momento, aponto como possibilidade.

      De resto, a relação Taure - Taurinian, que faria também sentido etimológico, como dizes, não explica a referência ao Douro, que é o que me intriga profundamente...

      Eliminar