Avançar para o conteúdo principal

Mensagens

Das igrejas e da geo-referencialidade

Diz José da Cunha que, "nos primeiros séculos da cristianização peninsular, a presença de uma igreja era uma marca de tal modo importante e rara no espaço geográfico, histórico e cultural que merecia diferenciá-lo toponimicamente". A ciência toponímica explica que esse é, precisamente, um dos condicionantes sine quae non para o estabelecimento de um topónimo. Mas, em qualquer caso, mesmo sendo efetivamente certo o que Cunha indica, parece que a relevância que justifica salientar a igreja em forma de topónimo não se deveu produzir apenas nos primeiros séculos da cristianização. Vejamos. É certo que nessa época a igreja é um facto diferenciado, raro, com efeito, por palavras de Cunha. Ora, mesmo durante o século XI, quando Raoul Glaber ressumia o fenómeno de proliferação de igrejas por toda a parte na Europa ocidental, chegando a dizer aquela conhecida frase triunfal em que o mundo se revestia de um "branco manto de igrejas", a nível microtoponímico, a igreja dev...

Lisboa foi um porto feliz?

Noutra parte deste caderno já se falou do modo como a etimologia, ciência que nasceu ao abeiro do romanticismo, se coligou amiúde com o nacionalismo e o chauvinismo para produzir as mais imaginativas soluções. Na Galiza, por exemplo, a Crunha estava fundada por Hércules, segundo asseguraram alguns, referindo-se ao faro que na atualidade se denomina Torre de Hércules, precisamente. Ponte Vedra, por sua vez, era fundada por Teucro, e assim por diante. A ideia dessas fundações heróicas pode entender-se na Galiza como uma vontade, talvez, de superar a minorização que os poderes centralistas fizeram sempre, desde o processo de Doma e Castração. Talvez. Disso saberão falar os antropólogos. Mas, mesmo que esses condicionantes operem aí, a referida tendência não se dá apenas na Galiza. De Lisboa diz-se que foi fundada por Ulisses, tomando como base uma lenda - por si pouco clara - transcrita por Estrabão, ou por Elissa, princessa fenícia; também por Eliasser, da casa de Abraão; por Elis, bi...

O neno ou as águias

Vai outra de toponímia deturpada . Quem leia saberá desculpar, por dous motivos: porque a toponímia deturpada se presta às maiores burrices no seu estudo etimológico; e porque a toponímia deturpada é, simples e tristemente, maioritária. O caso de hoje constitui, ademais, uma das mais flagrantes barbaridades daquele processo de desnaturalização linguística que continua, mas que teve a sua época de glória há já uns anos. Refiro-me a Ninho d'Águia , que alguém traduziu, pola brava, como "Niño de la Guía" (Criança ou Neno do Guia), apoiando-se em sei lá que cousas da Virgem Maria. Uma explicação cristológica Ora, Ninho d'Águia é também um exemplo do modo como os linguístas procuram às vezes os três pés do gato ou, por outras palavras, trocam a linguística e o sentidinho pola tripologia felina (Umberto Eco dixit). Por isso houve quem insistisse em que uma interpretação como Neno da Guia teria sentido porque nas Astúrias há tradição de representar a Virgem do Guia le...

A Crunha: promontório ou fundação divina?

Já se anunciou no artigo anterior  e, como uma das minhas paixões é a toponímia (paixão estranha, sei), já é hora de falar da Crunha (graf. isol. A Coruña) e das suas possibilidades etimológicas. Na nota a respeito da toponímia de Compostela já se avançava a ideia de que as interpretações etimológicas de determinadas palavras, e nomeadamente de alguns topónimos, têm mais a ver com a exigência comercial do turismo do que com a linguística. Pode que muitos topónimos fiquem à margem dessa influência espúria, mas, sem dúvida, onde haja turismo haverá também interpretações para todos os gostos. A Crunha, evidentemente, não vai ser uma exceção. À partida, há quem assinale (Caridad Arias, 2004: 288) uma etimologia relacionada com o titã da mitologia grega Crono ( Κρόνος, não confundir com Chronos: Χρόνος ), através da equivalente forma celta de Cruinne , que apresenta a característica antecipação celta do -i- desinencial da forma * Crunni . Esta hipótese situa o topónimo na época de c...

Artigo ou mutilação?

Eu cheguei ao estudo da toponímia ao ver como, em multidão de casos, os nomes de lugar do meu país estavam incorretamente escritos. Não estou a falar do modo como o fascismo espanhol se dedicou selvagem e alegremente a deturpar a toponímia galega, mas de como, amiúde, os próprios utentes do português galego, nomeadamente durante a época conhecida como Séculos Escuros , mas também antes, começaram a perder constância da morfologia e do significado de alguns dos seus topónimos. Em concreto, referirei-me ao caso da toponímia composta por falso artigo + nome . Não há regras Em primeiro lugar, vaia por diante, não existe em português qualquer regra referida ao uso do artigo antecedendo topónimos. O uso é que faz a norma. E, com o uso, há topónimos que costumam levar artigo, como o Porto , e outros que costumam não levar, como Vigo . Há quem sustenha que a aparição do artigo se produz naqueles topónimos em que o nome tem um significado certo para o falante. Isso aconteceria, por exempl...

Compostela: necrópole ou entulheira?

Vamos começar por um topónimo, dos mais controversos e, para mim, dos mais interessantes, por ser o nome da cidade em que moro e da capital do meu país, cujo nome, Galiza , iremos analisar noutro momento. Vaia, em primeiro lugar, uma alerta: o nome Compostela está a desaparecer ou, pior, a ser desaparecido nos últimos tempos, primeiro mediante a imposição da fórmula "Santiago de Compostela", e, já agora, mediante a substituição direta do topónimo pelo hagionímico de Santiago (do latim Sancti Jacobi , via galego-português medieval Sant-Iago, atual São Tiago), o apóstolo de Cristo pretensamente (sendo generosos) soterrado no lugar que hoje ocupa a impressionante catedral. O resultado é que muito pouca gente chama hoje a cidade polo seu nome, e que numa grande proporção dos mapas que circulam polo país aparece já simplesmente a forma Santiago. Sou dos que pensa que esta substituição não é por acaso, mas isso é outra história para se contar noutro momento. Catedral de ...