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Toponímia celta (IV): o tema inh-

Inhanho (Cabana de Bergantinhos), Inhovre (Rianjo) e Inhás (Oleiros) são topónimos na Galiza cujo lema inh- parece ter muito a ver com os hidrónimos Inha e Dinha (< de Inha) que há em Portugal, e também com o rio Em (" inter rivulos Enn et Gorgula "; 940), na zona galega do Gerês, como se verá. A presença do tema Poderia considerar-se, em primeiro lugar, que esse *inh- que na documentação medieval aparece por vezes como *ini- e outras vezes como *ign - tenha algo a ver com o étimo latino ignis 'fogo, lume'. Dad que Inha , Dinha e Em são nomes de rios e que tanto Inhanho como Inhovre e Inhás estão relacionados também com hidrónimos, interessa observar como a relação da água com o calor está presente em formas como Fervença e Ola (= remoinho), e também em Águas Caldas (cf. nos numerosos Caldas, com perda do apelativo "água", que há tanto na Galiza como em Portugal), em Águas Quentes ou em Rio Caldo , por citar apenas uns exemplos evidente...

Falsos fitotopónimos

Quantos nomes de lugar há que sejam Carvalho? Quantos Pinheiro? Quantos Sobreira, quantos Figueira, Nogueira ou Moreira? E, porém, como suspeita José da Cunha , não são elementos vulgares de mais para darem nome a um lugar? Não são elementos que há por toda a parte e, por isso mesmo, inúteis para significar com o seu nome um espaço geográfico com as exigências que isso comporta? Será que há falsos fitotopónimos ? Pois, vejamos. Sambucus nigra O próprio Cunha resume o processo de maneira dificilmente melhorável: "não dão nome às coisas, absorvem o nome de outras coisas". Assim parece que seja, com toda probabilidade, em diferentes casos. De modo que Castanheira seria, por exemplo, uma forma assimilada de costaneira , como lugar do início de uma encosta. Esse costaneira assimilar-se-ia ao fitónimo castanheira por duas leis fundamentais das línguas: a economia da linguagem e, quando menos até ao século XIX, a extrema variabilidade toponímica de uma área para outra (f...

Mesão do Bento, não do Vento

Já se falou em diversas ocasiões do modo como a ignorância premeditada que instituiu a ditadura fascista no Estado espanhol trouxe para a Galiza importantes consequências no âmbito concreto da toponímia. Às castelhanizações , que foram deturpações consabidas e, portanto, bárbaras, há que somar outras fórmulas como a de ir à toa segmentando falsos artigos (v. Artigo ou mutilação ) ou trocando significados , com o caso espantoso de Ninho d'Águia . O que ocupa outra nota é mais um exemplo desta fórmula da ignorância premeditada, de como se esvaziaram de conteúdo as nossas referências. Excluíndo as referências hagionímicas, a branco, as ocorrências de Bieito; a preto, as ocorrências de Bento (incluídas as grafadas com v-) Fonte: SITGA-IDEG O caso das posses " do Bento ", como Casa do Bento, Mesão do Bento, Moinho do Bento, etc. é similar ao do ninho das águias. Ao escreverem os poderes Vento com "v" remetem literalmente para o ar em movimento, estabelecen...

Topónimos germânicos (V): terminações em -sende e -sinde

Vai mais uma peça sobre as terminações de topónimos derivadas de genitivos germânicos, nesta ocasião referidas a -sende e -sinde. Estas terminações correspondem-se com os lemas paleo-germânico *senþaz 'companheiro' ou *swenþaz 'forte', e com elas, aparecem nos limites da antiga Gallaecia mais de meio cento de topónimos diferentes, sem contar os microtopónimos, cuja extensão ultrapassaria as possibilidades desta nota. Antes de mais, porém, interessa destacar que a raiz *send / * sind aparece na antroponímia tanto como protema (com -e-: Sendamirus, Sendericus, Sendinus, Sendredus, Sendulfus; e com -i-: Sindamundus, Sindigis, Sindileuba, Sindiverga, Sinduara) quanto como deuterotema, o que explicará a terminação -sende/-sinde que vamos analisar a continuação: Topónimos com terminação -sende / -sinde. Ambas as variantes com distribuição por todo o país.  Fonte: SITGA-IDEG e IGN.  Equivalências diretas A maioria dos topónimos não apresentam qualquer compli...

Lugares com falso nome de pessoa (II): Mariola, Marta e Martim

Continuando com o fio sobre lugares com falso nome de pessoa, no qual já foi tratado o caso de Suso e Susana , vejamos agora mais um exemplo com os nomes de Mariola, Marta e Martim. Mariola é, na Galiza, hipocorístico do nome bíblico Maria (hebreu Miriam). Marta é também nome bíblico, derivado do hebreu-aramaico מַרְתָּא , isto é "a Senhora"; sem dúvida é daí, através do culto cristão, que o nome se populariza, mas há quem sustenha que já tinha presença anteriormente, relacionado com o culto ao deus Marte, igual que Martinus . Martim existe, por sua vez, como a variante mais comum de Martinho, por influência do castelhano Martín . Mas são esses antropónimos os que subjazem sempre nas suas ocorrências toponímicas? Quem deitar uma olhadela sobre a toponímia da Galiza e de Portugal, nomeadamente no norte (com a notável ausência da área da atual província de Lugo), muito provavelmente se deparará com Mariolas, Martas e Martins que lhe resultem, no mínimo, um bocado estranh...

Toponímia celta (III): o tema ambas

Existe uma pequena controvérsia a respeito de se o tema * amba- , que na Galiza e no norte de Portugal tem uma certa presença, tem procedência céltica ou anterior, paleoeuropeia. Bascuas (2006), contudo, já notou a possibilidade de um tema paleoeuropeu sobreviver sem alteração a um superestrato celta . A tese de Bascuas é justamente esta: que ainda quando ambas provenha do paleoeuropeu com valor hidronímico, não há dúvida de que continua, por séculos, a servir como apelativo de "água", e não só (mais reduzidamente) de "rio". Assim acontece nos casos dos numerosos Ambasmestas , em forma de híbrido celta ambas + latim mixtas , significando águas misturadas, com ocorrências no concelho de Carvalhedo, entre os rios Sil e Minho; no Bierço, entre os rios Lamas e Balboa; e no concelho de Quiroga, entre os rios Lor e Sil, no lugar que hoje, porém, se denomina Águas Mestas. Proximidades de Ambosores, em Ourol Essa dupla Ambasmestas / Aguasmestas remete para ...

Topónimos celtas (II): tema tegi-

Para os temas *tagi- e *tegi- , o professor Edelmiro Bascuas (2006: 62 ss.) tem oferecido o significado "lodeiro" baseado no PIE *ta- "derreter, apodrecer", que parece claro em hidrónimos como Tejo (<Tago). Porém, Miguel Costa (2010) oferece uma revisão na que, sem negar a possibilidade desse significado, traça uma alternativa de ascendência céltica onde *tegi - poderia relacionar-se com o éuscaro tegi , significando "alpendre". A pervivência de  tegi É certo, ademais, como ele mesmo assinala, que as ocorrências de "casa", como em geral de outros étimos do campo semântico da habitação ( oicotopónimos ), como vila, sá ou pai (< lat. pagus, -i ), são muito mais comuns do que as ocorrências que têm a ver com a lama e os lodeiros. Ademais, confrontando * tegi com as línguas célticas obtêm-se tech em antigo irlandês; tig em antigo galês, ti em antigo córnico e boutig (casa de bois; estábulo) em bretão antigo. E não só. Também estã...